
Quando o coração é culpado
E dessa vez, de verdade
Por Márcio Eliziário
4/3/20262 min read
O motivo do parecer
O pedido chegou com o essencial: nome, leito, motivo. Paciente com quadro de dispneia progressiva, tosse seca, ortopneia e cansaço aos mínimos esforços. Internado inicialmente por pneumonia adquirida na comunidade. Dispneia persistindo após tratamento infeccioso. Suspeita de insuficiência cardíaca descompensada.
Antes de ler qualquer exame, antes de abrir qualquer laudo, o caminho é um só: ir ao paciente.
O paciente à beira do leito
Há um momento no parecer em que os documentos precisam ceder espaço ao corpo do paciente. É ali, na beira do leito, que o raciocínio clínico encontra sua matéria-prima mais honesta — antes que qualquer resultado de exame tenha a chance de moldar o olhar.
A história clínica
Um homem de 65 anos. Hipertensão arterial e diabetes mellitus como únicas comorbidades conhecidas. Em uso de Losartana 50mg duas vezes ao dia, Metformina 500mg uma vez ao dia e Gliclazida 30mg ao dia. Ex-tabagista — quinze maços-ano, abstêmio há mais de vinte anos. Ex-etilista, abstêmio há mais de vinte anos.
Sem diagnóstico prévio de insuficiência cardíaca. Sem episódios semelhantes anteriores. Negava dispneia prévia.
O exame físico
Nível de consciência preservado — Glasgow 15, orientado, colaborativo. Afebril. Pressão arterial de 126x72 mmHg, frequência cardíaca de 94 bpm. Débito urinário adequado. À primeira vista, um paciente que não alerta pelo instável — mas que carrega, no corpo, sinais de uma sobrecarga que já dura tempo suficiente para se organizar clinicamente.
Há casos em que o parecer chega com o diagnóstico já formado, a conduta já esboçada e a pergunta, na prática, já respondida. O médico assistente não está pedindo uma segunda opinião no sentido de duvidar — está pedindo respaldo, organização e direção para o próximo passo. Esses casos têm um valor próprio. Não pela complexidade do mistério diagnóstico, mas pela qualidade das decisões que precisam ser tomadas dentro de um quadro que, embora claro em sua essência, exige raciocínio cuidadoso em cada detalhe.
Este é um desses casos.
Mas negação de sintoma e ausência de sintoma não são a mesma coisa. Pacientes com disfunção cardíaca de evolução lenta e insidiosa frequentemente se adaptam — reduzem o ritmo de vida de forma tão gradual que a limitação funcional deixa de ser percebida como sintoma e passa a ser interpretada como envelhecimento, sedentarismo ou cansaço normal. O coração vai perdendo função enquanto o paciente vai perdendo espaço — e nenhum dos dois percebe com clareza o que está acontecendo. A pergunta certa, feita com cuidado, frequentemente revela o que o paciente não sabia que estava escondendo.
A porta de entrada foi uma pneumonia adquirida na comunidade, com insuficiência respiratória aguda. O tratamento infeccioso foi instituído — mas a dispneia não cedeu. A intolerância ao decúbito persistiu. O edema de membros inferiores surgiu. A congestão pulmonar não se desfez com o antibiótico.
Foi nesse momento que o caso mudou de natureza. Não era mais apenas uma pneumonia tratada com sucesso incompleto. Era um coração que estava sendo visto pela primeira vez — e que já tinha muito a dizer.